8 de outubro de 2013
Insípido, subjetivo, lúgubre e abstrato.
Eu guardei no fundo de mim a marca que você deixou quando passou e foi embora sem avisar. Inconfundível. Guardei tão fundo que até esqueci. Esqueci dentro de mim. Até que um dia eu lembrei. Lembrei também que eu nunca soube cuidar de ti, nem de mim. Aliás, se serve de consolo, até hoje não sei. Só tenho vagas noções do que fazer ou não – aquela linha tênue. Essa mesmo, que vivo dançando encima com um guarda-chuva. É porque chove bastante por aqui. Tão minha vida. Mas esse é o meu pecado, sabia? Ter um os dois olhos e coração no presente, e um pezinho das memórias no passado, e tentar fazer disso um malabarismo para em uma tentativa frustrada lembrar quem fui pra não perder minha essência. Essa que você ignorou por tanto tempo e sequer conheceu a fundo, mas que na verdade sequer estava formada. Não tinha como, afinal de contas. Hoje eu sei que a marca que você deixou aqui, me serviu de algo, ajudou a moldar quem eu sou, nem que isso signifique ser apenas mais um souvenir nesse museu vasto que por vezes me perco e passo horas até achar o caminho de volta. Mas eu sempre acho. Problemático. Eu sei, existe um motivo. Existe um motivo para você não estar mais aqui. Existe um motivo pra tudo ser passageiro. Motivo esse é me fazer lembrar, e me deixar vivo, por isso. Consigo lembrar de tanta coisa, mas não lembro mais seu nome, número de telefone, formato do rosto, som da sua risada ou sequer seu cheiro. Hoje eu só lembro de mim, de como eu me senti e de como eu continuo me sentindo. É assim que funciona. Até a minha memória se desgastar e eu me perder por completo e definitivamente. É fato. É tão certo quanto a minha vida ser um aeroporto. Tão certo quanto eu detestar idas e vindas. Tão certo quanto eu detestar lembrar. Só não tão certo quanto a vida.
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