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2 de abril de 2013

Conversas de elevador

No saguão eles se encontraram, depois de muito tempo sem se ver.

Aquele sorriso fácil caiu, e ambos sabiam que era uma gentileza coberta de formalidade que chegava a ser constrangedor. Ocorreu então, o pensamento de que as coisas tinham ficado complicadas demais. Ou não.

Entraram no elevador, e as mãos erraram o trajeto na hora de apertar o botão do andar - elas se encontraram. Uma conversa vazia e uma negligência óbvia era tudo o que eles poderiam oferecer um ao outro no momento, e era o que estava acontecendo . Só que nem sempre foi assim.

"Sinto saudades do que éramos" - disse um.
"Sinto saudades de quem eu era" - disse o outro.

E finalmente se deram conta de que estavam um a frente do outro.

Silêncio, um suspiro e uma história mal resolvida. - o elevador para.
"Eu só queria que nada disso tivesse acontecido", um diz um com um murmúrio.

Uma mão tatea em busca da outra, e encontra o vão. O outro sai fingindo que nada aconteceu. E só o que aconteceu mesmo, no fim das contas, foi a vida.

5 de janeiro de 2010

Dear bomberman,

Me sinto estranho daqui de cima, nessa torre. É uma ótima visão, mas me trás um leve desconforto misturado com uma inquietação inevitável. Talvez eu exploda aqui em cima, talvez não, definitivamente não sei. Só queria ver como eu sou em uma dimensão paralela à essa, uma curiosidade íntima que tenho. Será que tenha sido eu, destinado a ser eternamente esse homem bomba que eu ocasionalmente acabei me tornando? Tenho que descer daqui, toda essa auto-reflexão não está me dando idéias lucrativas e esse vento não está soprando ao meu favor. Ei, você que mora aqui dentro, as vezes chorar faz bem.

22 de dezembro de 2009

Sorte



Sou grato pela vida que eu tenho, eu poderia ser uma dessas crianças famintas, mas não sou, porque tive sorte. Aposto que se uma dessas crianças tivessem alguma coisa, por menos que seja, eles dividiriam com quem não tem nada. Nós temos tudo, porque não dividimos? Hipocrisia move o mundo, hipocrisia mata pessoas.


Cuidado, o próximo pode ser você.

6 de novembro de 2009

Aquele transeunte insolente

A cidade dorme, enquanto eu aqui fico pensando em como quebrar as regras, pensando em como burlar as normas, como me esquivar cada ataque de frente que o acaso insiste em desferir.

O mundo me vigia, observando de perto cada paço que inocentemente dou, cada gesto que faço inconscientemente, cada ação sem sentido e cada reação sem mais sentido ainda, o mundo nos vigia.

Eu fico em silêncio, pra ouvir e observar o que cada um ao redor de mim faz, aonde cada coisa fora do lugar cai, por onde meus passos me levam, aonde a onda do mar bate, aonde o vento sopra.

A cada volta, a cada círculo andado, a cada história repetida, é como se essa cidade, as pessoas e o mundo conspirassem contra mim. Todas essas ações inúteis finalmente parecem ter alguma razão, uma causa ou, causador.

Medo? Todos temos, isso reforça meu traço humano, mesmo que perdido. Não é a justificativa para deixar de ir em frente, mas sim para todas as feridas não-cicatrizadas no meu corpo, lembranças de cada batalha perdida, ou celebração de cada dádiva vinda até mim por meio de uma batalha.

Insisto, insisto para ganhar a guerra, que só acaba quando eu chegar aonde quero, eu, e somente eu digo quando isso acaba.

Deixa eu entrar na sua vida?