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10 de julho de 2012

Redenção, Graça, Indulgência e Empatia

Quando a gente cresce em um país pacífico, acaba achando que o mundo inteiro é assim, só que não é. Quem me abriu os olhos para isso foi o Khaled Hosseini, com A Cidade do Sol. Como afegão, nos livros dele sempre tem presente o elemento "coisas pesadas que as pessoas carregam a vida inteira", tornando os personagens pessoas que precisam de redenção. No fim das contas todo mundo espera por redenção, por uma chance para se livrar de algum fantasma e jogar fora os esqueletos presos no armário, mas existe uma linha tênue entre esperar por redenção e precisar de redenção, e o que surpreende é o dano que viver com essa necessidade causa.

É uma coisa desgastante, que na maioria das vezes cria nas pessoas uma natureza indulgente, que é bastante semelhante ao "caminho da graça" citado no filme A Árvore da Vida, dirigido pelo Terrence Malick: 
"As freiras nos ensinaram que existem dois caminhos na vida: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você precisa escolher qual deles vai seguir. A graça não procura satisfazer a si própria, ela aceita que a desprezem, que a esqueçam, que não gostem dela, ela aceita ser insultada e ser ferida.  A natureza só quer satisfazer a si mesma e fazer com que os outros a satisfaçam.  Ela gosta de ser livre e que façam a sua vontade.  Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas."

Apesar de graça ser um conceito judaico-cristão, é possível ver que essa natureza indulgente transcende o conceito de religião e é totalmente perceptível em Mariam e Laila, os dois personagens principais de A Cidade do Sol. Mariam veio ao mundo como uma harami (bastarda) e sempre se viu como alguém sem lugar no mundo, sem nunca exigir nada de ninguém e perdoando a todos, sem levar em conta o que a vida lhe fez: o peso do suicídio da mãe, não ter um lugar na família paterna, violência doméstica, incapacidade de ter filhos e ter que conviver com a guerra no jardim de casa. Já Laila, era uma criança que teve sua infância roubada pela guerra, que perdeu os pais e o mundo que conhecia, enquanto carregava um filho, sendo violentada também. Esse é o caminho da graça de Laila e Mariam, que transformou o descaso do mundo com as duas em uma natureza indulgente, o que foi essencial para elas a se acharem e enfrentarem as adversidades juntas, passando por fome, privação de liberdade, dentre outras coisas do mesmo tipo.

A gente sempre acha que esses personagens de livros só carregam esse tipo de carga por serem personagens fictícios, mas na realidade existe tanta gente no mundo que traz uma bagagem desse tipo e é tão danificada por isso que na maioria das vezes ninguém percebe isso por conta de um único fator: individualidade. A realidade de um país em guerra é assustadora, é difícil e nada realista sequer imaginar isso. Maioria dos afegãos carrega nas costas a vida de um ente querido que morreu vítima da guerra, seja direta ou indiretamente, são milhares de histórias tristes que só existem quando são contadas, que na maioria das vezes passam despercebido até alguém prestar atenção. Isso desperta empatia, não tem como não despertar. É certo que algumas pessoas possuem essa natureza empática, e para essas é mais simples lidar com esse tipo de coisa, diferentemente de outras que possuem um nível de sensibilidade menor. É a diferença entre se importar e fingir que se importa, a diferença básica entre o caminho da graça e o caminho da natureza.

Em A Arvore da vida existe uma beleza, e até uma certa elegância na morte, me arrisco a dizer. Ele trata a morte de uma forma melancólica, enquanto em A Cidade do Sol a morte é uma certeza iminente que espera do lado de fora na porta. Em Six Feet Under, a aclamada série da HBO criada por Alan Ball, com Michael C. Hall, Frances Conroy, Peter Krause e Lauren Ambrose no elenco, a morte é tida como uma espécie de coadjuvante e guia do núcleo principal da série, que são donos da funerária Fisher & Sons, estando presente em todos os episódios. É um ponto de vista filosófico, muitas vezes mostrando manifestações do subconsciente dos personagens, sem perder o ar fúnebre e tratando a empatia dos personagens nessa relação criada pelo luto, mostrando que empatia pode ser sim adquirida, e que é uma coisa linda.
Kurt Cobain não poderia ter deixado outra mensagem em sua carta de suicídio a não ser "Paz, Amor e Empatia".

 Redenção, Graça, Indulgência e Empatia ultrapassam o conceito religioso, são características do molde humano, que nos alteram de um jeito irreversível e está presente em vários lugares. É só prestar atenção no mundo...

24 de junho de 2012

O quase soneto

Certa fez eu fiz uma oração para ninguém em especial
Nela, eu pedia para que você ultrapassasse essa escuridão
Pegasse a sua nave, voasse pelo espaço sideral
E chegasse ao parapeito da minha janela para lutar contra a solidão

Mas aí eu percebi que a solidão nem sempre é um inimigo
Que ela sabe tudo sobre você, tudo sobre mim, tudo sobre nós dois
E aprendi a viver com o risco, e fiz dele um amigo

Então eu continuei com a minha oração
Mas dessa vez não era para ninguém, mas sim por alguém
E percebi que a verdadeira força vem do coração
Que a gente sempre olha com desdém.

Eu rezo pra que você fique bem.



19 de maio de 2012

The Platinum Rule

É de conhecimento geral que a sociedade é regida por um conjunto de regras éticas e morais que são seguidas inconscientemente pela maioria, como não matar, não roubar e etc. Nesse código de ética, ou moral, existe uma regra chamada a regra de ouro, ou golden rule. A regra de ouro diz essencialmente "não faça ao outro o que você não gostaria que fizessem a você", uma frase ouvida universalmente, confirmando a extensão dessa regra. É um conceito de reciprocidade pré-estabelecido que envolve igualdade, sendo aproveitado nas várias religiões espalhadas pelo mundo (inclusive presente na bíblia cristã).

Na verdade, não estou aqui para falar disso. Estou aqui para falar da "regra de platina", ou the platinum rule. No décimo primeiro episódio da terceira temporada de How I Met Your Mother, o personagem Barney Stinson faz menção à uma regra que seria superior à golden rule, a platinum rule, que diz, segundo o personagem: "Nunca, nunca, nunca, jamais, ame o próximo", como uma tentativa de dissuadir Ted Mosby a investir em um relacionamento que complicará sua vida, devido ao fato dele se relacionar com uma mulher que ele veria frenquentemente, mesmo com o Ted sabendo dessa larga possibilidade e decidindo se arriscar. Como um eterno guerreiro contra os relacionamentos, Barney desenvolve essa teoria, dizendo que a história sempre se repete em oito passos:

1° Passo: Atração



Geralmente, a atração acontece de uma forma muito simples e cotidiana. É instantânea e inegável. Mas você conhece bem, você já viu todos os seus amigos cometerem o mesmo erro. E você pensa "é diferente, a regra de platina não se aplica a mim", e é aí que entra o segundo passo.

2° Passo: Barganha




A barganha começa a partir do momento que você sabe que tem uma atração, e começa a inventar motivos para não ser uma má idéia, mesmo sabendo que é. A barganha é a negociação que você faz consigo mesmo para se convencer disso e dissuadir um futuro problema ou complicação que aparecerá mais na frente. E isso nos leva ao terceiro passo.

3° Passo: Submissão




Diferentemente dos outros passos, a submissão acontece mais de forma sutil, e é basicamente só a ponta do iceberg. Começa com um convite sutil, como um programinha de casal. Mas como eu disse, é só a ponta do iceberg. Até aí são tudo flores, não tem nada complicado, é tudo simples e fácil. E é aí que o quarto passo chega.

4° Passo: Benefícios




Os benefícios são de longe a parte mais interessante da regra de platina. Não falo de um jeito vampiresco parasita, é uma coisa totalmente inconsciente, beirando as vezes a inocência. É a parte que você realmente se engana pensando que pode ser diferente, mesmo passando por esse tipo de situação milhares de vezes. E mesmo sob avisos, você continua barganhando consigo mesmo que é uma coisa boa e não vai acabar de forma trágica, esquisita e complicada.

5° Passo: O ponto de inflexão




Tirando a minha definição de ponto de inflexão sob o ponto de vista de um universitário da área de exatas, podemos considerar o ponto de inflexão como o ponto em que os benefícios começam a perder a graça e as coisas começam a se inclinar ladeira abaixo. Você sempre sabe quando ele chega, que é quando as coisas começam a ficar estranhas e às vezes sem graça de um jeito que você não tinha previsto. O ponto de inflexão está sempre fora de qualquer plano, ele é imprevisível. É nesse passo que a atração acaba. O que nos leva ao sexto passo.

6° Passo: Purgatório




Eu sei, eu sei, vocês vão me dizer que Papa eliminou o purgatório das crianças, mas eu lhes digo em resposta que, ele existe. O purgatório é um estado da regra de platina, é quando você percebe que cometeu um grade erro e começa a se culpar por não ter desistido antes. Obviamente, nesse passo você ouve muitos "eu te avisei", seja eles de forma descarada (geralmente vindo de amigos mais íntimos), ou o clássico subentendido "bem feito". Nesse passo, a barganha começa a fazer sentido, só que de um jeito negativo e você percebe que tudo que você disse a si mesmo antes era uma desculpa. O purgatório é o passo que você se sente preso, condicionado, enjaulado, e para sair dele, é preciso do sétimo passo.

7° Passo: Confronto


Para este passo em especial, é necessário uma mão firme e determinação, o que faz com que pessoas que são ruins em confrontar as outras ficarem mais tempo presas no sexto passo, também servindo para os procrastinadores e pessoas de paciência estendida. E é neste exato momento que entram as frases clichês, que no geral são as formas mais simples e práticas de acabar com o confronto, pois é de conhecimento geral que contra clichês não existem réplicas ou tréplicas. "O problema não é você, sou eu", "Acho que nós devemos ser somente amigos", "Nós precisamos conversar", "Eu não gosto de você desse jeito", "Sua amizade é importante para mim" é tudo oriundo do sétimo passo. Isso geralmente caracteriza o fim dos relacionamentos normais, mas como a regra de platina é aplicada à relacionamentos que acabarão mal pelo fato de você ter que ver a pessoa frequentemente, existe o oitavo passo.

8° Passo: A ruína



Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. A ruína é o ponto onde você se vê obrigado a ver a pessoa que você acabou de dispensar, e o inevitável clima estranho se insatura, e em situações extremas, começam as perseguições, ligações no meio da noite, e coisas do tipo. A diferença principal da regra de platina para os relacionamentos convencionais é a frequência com que ambas as partes se vêem. E isso faz total diferença nesse último passo. É algo que somente o tempo (na maioria dos casos) pode resolver. Um bom conselho para esse passo seria "se acostume com a pessoa psicótica no seu pé", e uma certeza que fica é: você nunca mais será o mesmo.

Então, acho que os oito passos descrevem bem o tipo de situação que todo mundo passa pelo menos uma vez na vida. O segredo é não correr atrás das borboletas, e não investir nesse tipo de relação na qual você se vê obrigado a interagir frequentemente com a outra pessoa. A regra de platina é bem clara, e apesar de ser descrita por um personagem de sitcom, desafio qualquer um a provar que ela não se aplica ao mundo real.

Barney Stinson, você é legen.... wait for it.... dary!

13 de maio de 2012

Até que Lucy teve uma epifania



Lucy esperava ansiosamente pelo fim do ano, era de longe a sua parte do ano preferida. Todas aquelas luzes, a animação, os enfeites de natal, tudo isso aquecia o seu coração. Em ventura de tudo que lhe acometera o ano inteiro, o fim do ano também fazia menção a um futuro recomeço, e consequentemente o fim de um ciclo. Lucy ainda se sentia frágil e vulnerável, duas coisas que pareciam suas únicas companhias em algum momento ou outro. E foi pensando sobre essas coisas que ela deixou a faca que tinha em mãos escapar, por um milésimo de segundo, transformando seu polegar em uma mina de sangue. Em uma reação de puro reflexo, pega um punhado de sal com a outra mão e coloca sobre o dedo cortado, fazendo-a agonizar de dor. Correndo rapidamente em direção a pia, ela percebe que gosta da sobreposição do vermelho-sangue sob o verniz da pia, e em seguida se sente incrivelmente estranha por tal pensamento. Enquanto colocava o dedo embaixo da torneira, decide que é hora de cortar as cordas e cair novamente. Que não é mais hora de ser frágil, de deixar o mundo dela se abalar de tal jeito, mesmo na completa ordem. Concluindo que era necessário cair, que para reconstruir algo era necessário a destruição de um outro, ela pega o telefone e disca o número que o seu subconsciente lembrava tão facilmente. Com a voz tremida e em certo tom de incerteza, Lucy diz algo sobre paciência, bem-estar, equilíbrio e um possível novo jeito, enquanto a voz do outro lado profere palavras que misturam raiva e o sentimento de traição. Nesse exato momento, teve a consciência de todo o tempo desperdiçado, de todas as histórias despedaçadas, de tudo que havia chegado ao fim. Lucy sabia que as perguntas sobre quem iria amá-la, quem iria lutar por ela e mais na frente a inegável menção a uma queda ficariam gravadas em sua memória por bastante tempo, mas não decidiu se importar por hora. Sendo franca consigo mesma, não se importaria com nada por um bom tempo. E foi mantendo esse pensamento em mente que ela pegou a faca de volta e voltou a fazer seu almoço, porque a fome era o único incômodo que ela decidira se importar.

29 de abril de 2012

Quando pensamos que a vida é sobre amor

Uma carta de amor pode ser levada com facilidade
 Pelos ventos que sopram mornos, por vezes enregelantes.
Para longe do destinatário e dono de direito, 
Que a só a vida sabe encontrar, de forma incerta.
Superestimação.

13 de abril de 2012

Nada em seu lugar



É esse silencio constrangedor que fica. É nessa parada que o meu ônibus para e me deixa sozinho, com as mãos enregeladas e tremendo de frio. Já faz uns 20 minutos que eu ando sem direção, e já faz mais algum tempo desde a última vez que eu consegui ver o sol ou alguma outra pessoa por aqui, nem que seja vagando, assim como eu, ou ocupada em alguma tarefa cotidiana não importante. Eu assisto o crepúsculo cair silenciosamente, deixando esse silêncio inquieto por conta da noite, que se alonga. Isso me perturba. Eu sento em um banco, ergo a minha mão na direção da luz de um poste, assisto uma folha cair de alguma arvore perto e a acompanho com o indicador, até que ela deita sutilmente em cima do banco e a luz do poste se apaga, como um sopro. As nuvens alaranjadas da luz vieram novamente, agora carregadas de chuva, sinal de que eu devo voltar, mesmo que não pertença à aquele lugar. 

8 de abril de 2012

Dark Thriller

Me dê sua alegria, e eu a transformarei em medo
Me dê sua raiva, me dê seu ódio, e eu me alimentarei disso
Deixe-me ver suas fraquezas corroerem você,
Deixe-me sentir o pulso do se coração mais rápido,
Suas pupilas dilatando,
A adrenalina a se espalhar pelo seu corpo, o cheiro de medo.
Deixe-me sentir a sua agonia, ao ver todos os seus fantasmas e demônios
Eu farei a vida se esgotar de você,
Quero sentir mais, e brincar de Deus.

O passageiro sombrio está dizendo que você não vai a lugar nenhum.