É uma coisa desgastante, que na maioria das vezes cria nas pessoas uma natureza indulgente, que é bastante semelhante ao "caminho da graça" citado no filme A Árvore da Vida, dirigido pelo Terrence Malick: "As freiras nos ensinaram que existem dois caminhos na vida: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você precisa escolher qual deles vai seguir. A graça não procura satisfazer a si própria, ela aceita que a desprezem, que a esqueçam, que não gostem dela, ela aceita ser insultada e ser ferida. A natureza só quer satisfazer a si mesma e fazer com que os outros a satisfaçam. Ela gosta de ser livre e que façam a sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas."
Apesar de graça ser um conceito judaico-cristão, é possível ver que essa natureza indulgente transcende o conceito de religião e é totalmente perceptível em Mariam e Laila, os dois personagens principais de A Cidade do Sol. Mariam veio ao mundo como uma harami (bastarda) e sempre se viu como alguém sem lugar no mundo, sem nunca exigir nada de ninguém e perdoando a todos, sem levar em conta o que a vida lhe fez: o peso do suicídio da mãe, não ter um lugar na família paterna, violência doméstica, incapacidade de ter filhos e ter que conviver com a guerra no jardim de casa. Já Laila, era uma criança que teve sua infância roubada pela guerra, que perdeu os pais e o mundo que conhecia, enquanto carregava um filho, sendo violentada também. Esse é o caminho da graça de Laila e Mariam, que transformou o descaso do mundo com as duas em uma natureza indulgente, o que foi essencial para elas a se acharem e enfrentarem as adversidades juntas, passando por fome, privação de liberdade, dentre outras coisas do mesmo tipo.
A gente sempre acha que esses personagens de livros só carregam esse tipo de carga por serem personagens fictícios, mas na realidade existe tanta gente no mundo que traz uma bagagem desse tipo e é tão danificada por isso que na maioria das vezes ninguém percebe isso por conta de um único fator: individualidade. A realidade de um país em guerra é assustadora, é difícil e nada realista sequer imaginar isso. Maioria dos afegãos carrega nas costas a vida de um ente querido que morreu vítima da guerra, seja direta ou indiretamente, são milhares de histórias tristes que só existem quando são contadas, que na maioria das vezes passam despercebido até alguém prestar atenção. Isso desperta empatia, não tem como não despertar. É certo que algumas pessoas possuem essa natureza empática, e para essas é mais simples lidar com esse tipo de coisa, diferentemente de outras que possuem um nível de sensibilidade menor. É a diferença entre se importar e fingir que se importa, a diferença básica entre o caminho da graça e o caminho da natureza.
Em A Arvore da vida existe uma beleza, e até uma certa elegância na morte, me arrisco a dizer. Ele trata a morte de uma forma melancólica, enquanto em A Cidade do Sol a morte é uma certeza iminente que espera do lado de fora na porta. Em Six Feet Under, a aclamada série da HBO criada por Alan Ball, com Michael C. Hall, Frances Conroy, Peter Krause e Lauren Ambrose no elenco, a morte é tida como uma espécie de coadjuvante e guia do núcleo principal da série, que são donos da funerária Fisher & Sons, estando presente em todos os episódios. É um ponto de vista filosófico, muitas vezes mostrando manifestações do subconsciente dos personagens, sem perder o ar fúnebre e tratando a empatia dos personagens nessa relação criada pelo luto, mostrando que empatia pode ser sim adquirida, e que é uma coisa linda.Kurt Cobain não poderia ter deixado outra mensagem em sua carta de suicídio a não ser "Paz, Amor e Empatia".
Redenção, Graça, Indulgência e Empatia ultrapassam o conceito religioso, são características do molde humano, que nos alteram de um jeito irreversível e está presente em vários lugares. É só prestar atenção no mundo...






